sexta-feira, 30 de novembro de 2012

No universo das ninfetas de Nabokov


"Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lô, apenas Lô. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita."

Assim se inicia um dos romances mais polêmicos do século XX de autoria do escritor russo Vladimir Nabovok, onde o louco apaixonado, admirador lírico, devoto incessante pela posse do corpo e alma de sua amada chama-se Humbert Humbert,  um professor de poesia francesa que encanta-se à primeira vista por uma garota de 12 anos, ninfa diabólica arquitetada no paraíso de sua imaginação: uma pequena ninfeta. Adjetivo o qual, o homem de 40 anos mescla desde o início da história referindo-se as garotas entre 9 e 14 anos sexualmente hiperdesenvolvidas e sedutoras, apreciação adquirida ainda jovem quando em termos de um relacionamento malsucedido. 
De primeira vista, pode-se imaginar que o narrador, assim como o mesmo se encaixa no mínimo como depravado, um perfeito pervertido. Para aqueles que ainda não leram o romance tal temática pode parecer de fato obscena e inaceitável, quando um homem que vivencia relações sexuais constantes com uma garota com idade para ser sua filha passa-se como pedófilo à impressão dos adiantados. Lolita é, embora vista aos olhos daqueles que o julgam antecipadamente como imoral,  uma história sem paradigmas, conceitual, antropológica. O apreciador, não como Romeu que enfrentou infinitas barreiras para ir em busca de sua tão aspirada pretensão, os braços "shakesperizados" de Julieta, mas sim numa constante visita ao acaso como hóspede de uma trivial pensão numa pacata cidade interiorana dos Estados Unidos, quando desprovidamente encontra sob os raios de sol matinais sua logo imortalizada poesia, sua Lolita. 
Talvez um dos motivos pelos quais tal romance nos deixa tão envolvidos e intimidados pelo paroxismo apoteótico à sua amada seja a profunda forma no qual os fatos são narrados ao decorrer da história. Humbert Humbert dialoga com o leitor, questionando assim sua então mente uma hora pedófila, noutra inquietante de louvor ao sonho de tê-la enfim, para sempre. Chega um momento em que realmente torna-se difícil encaixá-lo em qualquer categoria idealizada, tendo por fim, apenas uma certeza: H.H. a ama. 
Não, Lolita não é uma ingênua criatura de 12 anos de idade, uma vítima sem conhecimento prévio do que o narrador pretendia. Por vezes, é possível notar a mente aguçada e precoce da menina, que brinca e arma jogadas com seu Humbert Humbert, aquele que a imagina por cima de todos os pormenores possíveis.  Essa não é uma história sobre a natureza erótica e sentimental entre uma menina e um quarentão. Lolita é, talvez, um olhar obsessivo, quem sabe demasiado sexual, de um protagonista que não oculta sua neurose por uma ninfeta. 
O romance finaliza de forma drástica e inimaginável. Lolita casa-se com outro e apesar de H.H. implorar para que ela não cometesse tal erro, tudo não passa de palavras ao vento. O que deveras intriga-nos no desfecho final é a honestidade que nosso protagonista "borda"  o seu amor eterno pela já adulta menina numa espécie de carta escrita com a alma, um brevemente refugiado nos interstícios do universo atônito com a noção de que nunca mais de fato terá sua Dolores, sua Dolly, sua Lola, sua Lô, sua Lolita:

 "Nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue ainda pulsa nesta mão com que escrevo, você faz parte, como eu, da bendita matéria universal, e daqui posso te alcançar nas lonjuras do Alasca. 
[...] Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros,  nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita. "

E assim são preenchidas as últimas linhas desse tão enigmático e eterno romance. Quem sabe seja no final da história, quando o narrador debruça-se em meio tanta angústia sua benevolência grata por ter tido uma vez Lolita em seus braços, o momento no qual tanta adoração é finalmente "imortalizada" e ambos tornam-se "matéria universal" de um mundo, tão conhecido por H.H., onde nem sempre a utopia, a insana beatitude persiste rotineiramente, mas é eternizada na memória.

Luiza Duarte